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| Percepção | Características que definem a percepção | Escala hierárquica de Maslow | Aspectos individuais | Gênero e percepção de risco | Tipos de viés | Dimensões da confiança | Condições da confiança | Aspectos emocionais relacionados à percepção | Interculturalidade | Conclusões | Referências bibliográficas |
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O conceito de risco é complexo. O estudo deste conceito em várias disciplinas aumentou a sua complexidade e ampliou o entendimento das pessoas a esse respeito. As iniciativas da comunicação de risco devem ser tomadas de maneira a assegurar que a mensagem chegue aos grupos-alvo da população. Para tanto, é necessário, em primeiro lugar, encontrar formas de desagregar as diferenças e necessidades individuais e incluir na informação as preocupações sentidas pelo público. As pessoas tendem a ser particularmente resistente à idéia de que se encontra em risco diante de um perigo. A maioria das pessoas considera que se encontra diante de um perigo menor que a média dos outros, e que tem menor possibilidade de morrer de um ataque cardíaco, de se queimar ou de se tornar viciado em drogas. Dessa forma, a pessoa passa a se sentir infalível. Por exemplo, quase todo mundo acha que dirige melhor ou que tem menos probabilidade de vir a ter um câncer do que a média das outras pessoas. Este otimismo irreal baseia-se na informação disponível e em um raciocínio que leva a pessoa a pensar que o perigo não é uma ameaça verdadeira, mesmo que afete pessoas conhecidas. Isto influi na reação diante do perigo. A mensagem “isto também inclui você” é mais difícil de comunicar que “muitas pessoas morrerão”. A percepção é um fator importante a ser considerado quando se comunicam riscos. Vários estudos de antropologia e sociologia mostram que a percepção e a aceitação do risco têm suas raízes em fatores culturais e sociais. Argumenta-se que a reação ao perigo decorre de influências sociais transmitidas por amigos, pela família, por colegas de trabalho e personalidades públicas. Em muitos casos, a percepção de risco pode desenvolver-se depois de uma ação racional executada pelo próprio indivíduo. A informação sobre a magnitude do risco é importante para que haja conscientização de riscos até então desconhecidos, enquanto que a informação sobre a susceptibilidade pessoal é importante na transição da conscientização à decisão de agir. Entretanto, tomar a decisão de agir é diferente de passar à ação. A maioria das pessoas preocupa-se com os mesmos riscos que são causa de preocupação para seus amigos e por isso está alerta e pronta para reagir diante da indicação de que um perigo específico possa ou não representar uma preocupação local. Os indivíduos que se sentem seguros e aqueles cujas atitudes refletem um certo nível de conhecimento sobre o risco, vivenciam menos obstáculos para modificar o ambiente em que vivem do que aqueles que reagem com atitudes de defesa. Esse aspecto refletir-se-á no planejamento das atividades de um programa de comunicação de risco.
Os estudiosos da percepção de risco estudaram as características do risco que têm influência na percepção. A seguir estão definidas as condições que têm maior influência na forma de perceber os riscos. 1) Medo O que mais o preocupa, ser comido por um tubarão ou morrer de uma doença cardíaca? Ambos podem matar, mas os problemas cardíacos apresentam uma maior probabilidade de ocorrer. Apesar do que foi dito antes, as mortes que mais tememos são as mais preocupantes. O câncer, por exemplo, provoca mais medo porque é visto como uma forma horrível de se morrer. Isto explica por que os perigos que podem causar câncer, tais como a radiação e os agentes químicos, provocam medos intensos. O temor é um exemplo claro daquilo que pensamos sobre um risco em termos dos nossos sentimentos intuitivos, em um processo denominado efeito heurístico. 2) Controle A maioria das pessoas sente-se segura quando está dirigindo. Segurar o volante com as mãos provoca o sentimento de poder controlar os acontecimentos. Se a pessoa trocar de assento, e passar para o lado do carona, sente-se nervosa, pois deixa de ter o controle. Se a pessoa sentir que tem algum tipo de controle sobre o processo que determina o risco que enfrenta, tal risco provavelmente não será visto como tão grande quanto no caso em que não tenha nenhum controle sobre ele. 3) O risco é algo natural ou gerado pelas pessoas? As fontes de energia nuclear, tanto quanto os telefones celulares, assim como os campos elétricos e magnéticos, provocam com freqüência maior preocupação do que a radiação proveniente do sol, entretanto, é de conhecimento geral que esta provoca um grande número de câncer de pele todos os anos. A origem natural de um risco faz com que ele seja percebido como um risco menor do que aquele gerado pelas pessoas. Este fator pode explicar a grande preocupação com relação a várias tecnologias e produtos. 4) Escolha Um risco selecionado por nós mesmos parece-nos menos perigoso do que aquele que nos é imposto por outra pessoa. A pessoa que fala ao telefone celular enquanto dirige, pode achar perigoso que outro motorista use o telefone e ficará chateado com o risco imposto pelo outro motorista, mesmo quando a própria pessoa assume o mesmo tipo de risco, sem sentir a mesma preocupação. O controle que ela sente quando está dirigindo contribui para esta percepção. 5) Efeitos nas crianças A sobrevivência das espécies depende da sobrevida da sua prole. Por isso, os riscos que correm as crianças, tal como a exposição ao amianto na escola, ou o seqüestro de um jovem, parecem mais graves do que os mesmos riscos aos quais são expostos os adultos (como a exposição ao amianto no local de trabalho ou o seqüestro de um adulto). 6) Riscos novos Os novos riscos, incluindo-se a síndrome respiratória aguda grave (SARS), o vírus do Nilo e aqueles trazidos pelas novas tecnologias e produtos, tendem a ser mais terríveis do que aqueles com os quais convivemos há mais tempo, pois nossa experiência ajudou-nos a contextualizá-los. 7) Conscientização Quanto mais conscientes estivermos de um risco, melhor é a nossa percepção e maior a nossa preocupação. Por exemplo, a síndrome respiratória aguda grave (SARS) provocou mais cobertura da mídia, mais atenção e maior preocupação do que a gripe, que provoca um grande número de óbitos todos os anos. A conscientização de certos riscos pode ser alta ou baixa dependendo da atenção dada aos riscos. 8) Possibilidade de impacto pessoal Qualquer risco pode parecer maior se a vítima for a própria pessoa ou alguém próximo a ela. Isto explica por que a probabilidade estatística é freqüentemente irrelevante e pouco eficaz para comunicar risco. Quanto maior for a proximidade e o conhecimento das conseqüências do risco, maior poderá ser a sua percepção. 9) Relação custo-benefício Alguns analistas e estudiosos da percepção de risco acreditam que a relação custo-benefício é o principal fator que determina um maior ou menor medo diante de uma ameaça. Se uma conduta ou escolha for vista como benéfica, o risco a ela associado parecerá menor do que quando tal benefício não for percebido. 10) Confiança Quanto mais confiança tiver nos profissionais que estão encarregados da nossa proteção, nos funcionários do governo ou nas instituições responsáveis pela nossa exposição ao risco (por exemplo, os funcionários do setor ambiental ou os gerentes das indústrias) ou ainda nos responsáveis pela informação sobre um determinado risco, menos medo sentiremos. Quanto menos confiança sentirmos, maior será o nosso nível de preocupação. 11) Memória de riscos Um acidente memorável faz com que um risco fique mais fácil de ser lembrado e imaginado e pode, portanto, parecer maior (muitos lembram-se do escapamento de metilisocianato em Bhopal, na Índia, que afetou milhares de pessoas). As experiências pessoais são um elemento importante da percepção, pois determinarão o peso maior dado a certos riscos, quando comparados a outros estatisticamente mais significativos. 12) Difusão espacial e temporal Eventos raros como os acidentes nucleares são percebidos como mais perigosos do que os riscos comuns e cotidianos (acidentes de trânsito). 13) Efeitos sobre a segurança pessoal e nos bens Um evento é percebido como perigoso quando afeta interesses e valores fundamentais, como por exemplo, a saúde, a moradia, o valor de uma propriedade e o futuro. 14) Eqüidade É comum que as pessoas que têm de enfrentar mais riscos do que os outros e que não têm acesso a benefícios, sintam indignação. A comunidade acredita que deve haver uma distribuição eqüitativa dos benefícios e dos riscos. 15) Processo As instituições ou governos devem demonstrar confiabilidade, honestidade e preocupação com os impactos na comunidade. E devem comunicar-se com a população antes de tomar decisões, criando assim uma relação de respeito. Além disso, devem ouvir e responder às dúvidas e questionamentos que possam surgir. Quando essas condições não são cumpridas, a percepção de risco em questão é afetada de forma negativa.
Abraham Maslow desenvolveu a teoria do humanismo e uma das suas maiores contribuições para a psicologia foi a teoria das necessidades humanas, proposta no final dos anos sessenta, que explica que as necessidades humanas são de natureza hierárquica. Tal teoria defende que as pessoas não reagem tão-somente a forças mecânicas (estímulos e reforços de comportamento) ou a impulsos instintivos inconscientes, mas também a tudo aquilo que contribui para o desenvolvimento do seu potencial humano. Deste ponto de vista, as pessoas esforçam-se por atingir os mais altos níveis de conscientização e sabedoria. Outros psicólogos denominam as pessoas que chegam a esses níveis de completamente funcionais ou possuidores de personalidade saudável. Maslow as chamava de pessoas realizadas. A teoria das necessidades humanas tem uma ordem hierárquica de cinco níveis. Em uma pirâmide, as necessidades animais ou instintivas ficam na base e as necessidades humanas no topo. As pessoas que se encontram na base, não focalizam os valores e sim as necessidades da sobrevivência. Uma pessoa que sente fome tem o pensamento voltado para a comida. Para a maioria das pessoas, cada nível da pirâmide depende do nível inferior.
Maslow afirma que a realização pessoal é visto pelas pessoas como um chamado para fazer aquilo que sentem ser sua missão de vida. É isto que acontece com os músicos, poetas e escritores. Entretanto, as pessoas realizadas poderão dedicar-se a qualquer outra atividade que efetuem de maneira criativa e atenta. Se essas necessidades não são satisfeitas, a pessoa sente-se inquieta, irritada, tensa ou sente que lhe falta algo. As necessidades dos níveis inferiores também produzem sentimentos semelhantes, embora seja fácil identificar a causa. Se uma pessoa carece de comida, afeto, aceitação ou auto-estima a causa é aparente. A seguir, vemos a estrutura piramidal. Escala hierárquica de Maslow
Um dos objetivos do estudo da percepção de risco foi o de desenvolver uma taxonomia para entender e prever de que maneira as pessoas e a sociedade reagem aos perigos. Um esquema taxonômico poderia explicar, por exemplo, a extrema aversão das pessoas a certos perigos, sua indiferença diante de outros e as discrepâncias entre essas reações e as opiniões dos especialistas. No paradigma psicométrico, fazem-se juízos quantitativos a respeito do caráter perigoso real e desejado de diversos perigos e o nível desejado de regulação de cada um deles. Assim, tais juízos relacionam-se a outras condições, como por exemplo: a) as características assinaladas hipoteticamente como importantes para a percepção de risco e atitudes ; b) os benefícios de cada perigo para a sociedade ; c) o número anual de óbitos devidos ao perigo em um ano médio e d) o número de óbitos em um ano desastroso. O principal desenvolvimento desta área foi a descoberta de estratégias mentais ou heurísticas que as pessoas usam para ajustar-se em um mundo incerto. Embora essas estratégias sejam válidas em determinadas circunstâncias, em outras levam a um tipo de viés grande e persistente, com graves implicações na avaliação de risco. Estudos conduzidos em laboratório sobre as percepções básicas e o conhecimento, demonstraram que as dificuldades no entendimento dos processos de probabilidade, a cobertura tendenciosa dos meios de comunicação, as experiências pessoais enganadoras e as ansiedades geradas pelos problemas da vida provocam a negação da incerteza, um julgamento deficiente dos riscos (por vezes superestimados e outras vezes subestimados) e julgamentos sobre ações que se mantêm sem confiança garantida. Estudos e a experiência têm demonstrado que raras vezes os especialistas e o público estão de acordo com relação ao risco. Os especialistas estão propensos aos mesmos tipos de viés que o público em geral, sobretudo quando se vêem forçados a ir além dos limites dos dados disponíveis e são obrigados a apoiar-se na intuição. A seguir são comparados os fatores envolvidos na percepção de risco por parte dos especialistas e por parte do público.
Os subgrupos de uma comunidade podem reagir de acordo com suas características cultuais e sociais, assim como de gênero. Em geral, as mulheres sentem-se mais inseguras com relação a uma ameaça industrial, pois:
Também já foi observado que as mulheres reportam com maior freqüência situações de pânico com relação a atividades industriais. Como os valores das mulheres com respeito à saúde pessoal, ao bem-estar e ao cuidado com a família são mais elevados do que os dos homens, elas estão sujeitas a um maior nível de estresse e sentem-se mais ameaçadas pelos perigos industriais.
Sabe-se que as atitudes públicas com respeito ao risco são influenciadas por tipos de viés que, por sua vez, são o resultado de percepções pessoais que raras vezes têm fundamento. Os tipos de viés otimistas e os “tipos de viés de indignação” são dois exemplos que indicam por que as pessoas podem manter pontos de vista irracionais com relação a um risco particular. Os tipos de viés otimistas, também conhecidos como otimismo irreal, são alguns dos muitos desafios relativos à percepção que os comunicadores de risco têm de enfrentar. Vários estudos já demonstraram que os indivíduos podem reconhecer a existência de um risco, mas com freqüência presumem que não são vulneráveis a ele. É mais fácil reconhecer os perigos relacionados aos outros. Trata-se da síndrome clássica "isso não vai acontecer comigo”. Quanto mais uma pessoa pensa a respeito de um risco, mais passa a sentir que pode controlar a sua exposição a ele. Já foi demonstrado que os tipos de viés otimistas são mais comuns em eventos positivos, enquanto que os tipos de viés pessimistas são raros. Na figura abaixo estão indicados os componentes relacionados à percepção do risco por parte do público e que influenciam a subestimativa ou superestimativa do risco.
A percepção de risco relaciona-se também com o grau de confiança que um grupo específico tem com relação à instituição encarregada de gerenciar o risco. Há uma série de condições que podem fortalecer as relações entre os comunicadores de risco e a população em geral. Dentre essas condições, estão o compromisso, o cuidado, a competência e a honestidade. O julgamento que faz o público acerca dessas condições define a confiança que possui em relação à instituição responsável pelo gerenciamento de risco.
Os comunicadores devem tentar desenvolver as condições relacionadas à confiança para que possam ser aceitos de maneira adequada na comunidade com a qual trabalham. O fator mais importante na avaliação da credibilidade de uma organização, ou pessoa, decidido nos primeiros 30 segundos, é a empatia ou a percepção de cuidado que demonstrem em relação à população; a competência e a experiência determinam mais de 15% da credibilidade; a honestidade e a receptividade de 15 a 20%, ou seja, o mesmo percentual que a dedicação e o compromisso.
As emoções desempenham um papel importante na percepção de risco. A preocupação, a angústia e o temor podem ser o resultado do conhecimento que se possui sobre o risco e isto influi na percepção que se tem dele. Muitos comunicadores de risco não reconhecem as emoções e argumentam que o fazem por respeito ao público, por apreensão e algumas vezes por causa da crença errônea de que o tiro pode sair pela culatra.
O medo é uma emoção básica. Trata-se de uma reação face à necessidade biológica de proteção diante do perigo e por isso tem um poderoso impacto na percepção de risco. Na comunicação de risco reconhece-se que existe um equilíbrio sutil entre as emoções (medo), as ações e a confiança, que podem ser vistas como variáveis colocadas em uma gangorra; a confiança seria o ponto de apoio e as ações e o medo ficariam equilibrados nos lados opostos, como se pode ver na figura a seguir.
Em geral, as pessoas subestimam os riscos por acreditar que estão seguras e que são invulneráveis, não se sentindo, portanto, obrigadas a fazer algo a respeito. Há diferenças entre as avaliações técnicas e as avaliações do público quanto à identificação dos riscos mais importantes. O estudo sobre a percepção de risco indica que os especialistas geralmente definem o risco de uma forma técnica e limitada enquanto que o público julga o risco a partir de uma série de fatores psicológicos, sociais, institucionais e culturais.
A interculturalidade é uma situação encontrada em sociedades formadas por grupos sociais, raciais e culturais distintos. Algumas comunidades desfavorecidas ou marginalizadas deram um novo sentido às práticas ocidentais e as incluíram como parte da sua própria cultura, passando inclusive a identificá-las como próprias. A dinâmica cultural implica comunicações horizontais e verticais, ascendentes e descendentes. Por conseguinte, a expressão cultural de todos implica a confrontação cultural em certos momentos. Nesses casos, sugere-se desenvolver modelos alternativos de atenção aos sistemas locais de saúde, reconhecer a necessidade de transformar os processos de intervenção e fortificar o trabalho na área local. Isto possibilitará, além da participação da comunidade, a aplicação bem-sucedida dos programas de saúde. Na comunicação intercultural, especialmente junto às populações indígenas da América Latina, esboça-se uma situação complexa que limita as possibilidades de transmitir mensagens de maneira bem-sucedida. Nesse caso, será necessário dedicar uma especial atenção na elaboração das mensagens e nos aspectos culturais, a fim que as mensagens sejam captadas da melhor maneira possível.
A percepção de risco inclui diferentes elementos a serem levados em consideração em conjunto para compreender como os indivíduos e os grupos sociais percebem tais riscos. Conhecer a percepção de um determinado problema ambiental em uma comunidade é fundamental para poder elaborar um plano de comunicação de risco eficaz.
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